O que existe por trás de um crédito de carbono?

Da origem do projeto ao mercado é preciso entender tudo o que existe por trás de uma operação.
O mercado de carbono está crescendo, a regulamentação brasileira está avançando e novas oportunidades surgem para empresas, produtores, comunidades e investidores. Mas, antes de falar sobre a compra de um crédito de carbono, é preciso entender tudo o que existe por trás de uma operação.
De um lado, existe um projeto que gera uma redução ou remoção de emissões. Do outro, existe uma empresa interessada em compensar sua pegada de carbono. Entre os dois, existe uma negociação.
Na prática, porém, o caminho é muito mais longo.
Um projeto pode envolver propriedades rurais, florestas, comunidades, desenvolvedores, metodologias, inventários, auditorias, certificadoras, empresas especializadas, tecnologia, registros, intermediários, compradores, departamentos de sustentabilidade, compliance, instituições financeiras e reguladores.
Por isso, quando falamos sobre a venda de créditos de carbono, não estamos falando apenas sobre vender uma tonelada de CO₂ equivalente.
Estamos falando sobre transformar um projeto de ação climática em um ativo sustentável de alto valor e impacto, que precisa ser identificado, analisado, acompanhado e comercializado com segurança.
E essa discussão se torna ainda mais importante em um momento em que o Brasil constrói seu mercado regulado de carbono, por meio do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído pela Lei nº 15.042, de 11 de dezembro de 2024.
Um mercado em transformação
O Brasil possui algumas das maiores oportunidades do mundo para a geração de ativos relacionados à ação climática.
Florestas, agricultura, recuperação de áreas degradadas, conservação, restauração, energia, manejo territorial e outras iniciativas podem originar projetos capazes de gerar benefícios ambientais, sociais e econômicos.
O potencial financeiro também é expressivo. Um estudo citado no Blog da B4, por exemplo, estima que apenas uma parcela do potencial do agronegócio brasileiro direcionada ao mercado internacional poderia representar bilhões de reais em movimentação.
Mas existe uma característica que diferencia esse mercado de muitos outros:
o Ativo Sustentável nasce de uma realidade física, palpável e real.
Existe uma terra.
Existe uma floresta.
Existe uma comunidade.
Existe uma atividade produtiva.
Existe uma área que precisa ser conservada ou restaurada.
Existe um projeto que precisa continuar funcionando.
É por isso que um projeto de sustentabilidade que gera créditos de carbono não deveria ser tratado simplesmente como uma mercadoria “comoditizada”, ou seja, como um simples padrão para se colocar numa prateleira.
Imagine comprar um imóvel.
Você não avaliaria apenas a fotografia da fachada. Precisaria saber quem é o proprietário, qual é a documentação, onde está localizado, quais são as condições do terreno e do imível, quais são os riscos e qual é o histórico daquele patrimônio.
Com os ativos sustentáveis acontece algo semelhante.
Quanto maior o valor e o impacto de um projeto, maior deve ser o cuidado com a sua origem, sua documentação, sua integridade e sua trajetória.
O que existe por trás de um crédito de carbono?
Antes de chegar ao comprador, um projeto precisa passar por uma série de etapas.
O originador — que pode ser, por exemplo, o proprietário de uma área, uma comunidade ou uma empresa responsável por uma iniciativa — normalmente não precisa ser especialista em mercado de carbono.
E isso é importante.
Um produtor rural não precisa ser especialista em blockchain.
Uma comunidade não precisa dominar metodologias de carbono.
O proprietário de uma área não precisa conhecer profundamente auditorias
Mas é muito importante que todos eles conhecem o processo e a realidade do mercado.
Da mesma forma, uma empresa que deseja compensar suas emissões não precisa se transformar em uma certificadora.
É justamente por isso que existe todo um ecossistema de empresas homologadas ao redor desses projetos.
Desenvolvedores estruturam projetos. Auditores analisam informações. Empresas especializadas realizam trabalhos técnicos. Escritórios jurídicos apoiam questões legais.
Registradoras e plataformas trabalham com registros. Certificadoras verificam determinados atributos. Intermediários aproximam oferta e demanda. Bancos e fintechs podem participar da jornada financeira. Empresas compradoras avaliam riscos e estratégias climáticas.
E todos esses agentes precisam funcionar de maneira coordenada.
A qualidade do mercado depende da qualidade dessa cadeia.
Por que transparência é tão importante?
O mercado de carbono está amadurecendo.
Isso significa que existe cada vez mais conhecimento, tecnologia, demanda e regulação. Mas também significa que o mercado ainda enfrenta desafios naturais de uma indústria em formação.
Um deles é a assimetria de informação.
Quem está na ponta da originação pode conhecer profundamente seu território, mas não necessariamente conhece o funcionamento do mercado.
O comprador pode conhecer profundamente sua empresa, mas não necessariamente conhece a realidade do projeto que está adquirindo.
Uma área de sustentabilidade pode compreender os objetivos sustentáveis da organização, enquanto o departamento de compras está preocupado com preço, documentação e fornecedores.
O compliance quer segurança.
O jurídico quer documentação.
O financeiro quer previsibilidade.
O conselho de administração quer entender o risco.
E todos precisam olhar para o mesmo ativo sustentável.
Quando essa informação não está organizada, o processo fica mais lento.
É nesse ponto que intermediários podem ter um papel extremamente importante. Eles podem agregar projetos, estruturar operações, educar compradores, organizar informações e aproximar diferentes partes do mercado.
O problema aparece quando a intermediação se transforma em gargalo.
Se o comprador não recebe informação suficiente, ele demora mais para decidir.
Se o originador não é bem orientado, o projeto pode chegar ao mercado mal estruturado.
Se o banco ou a fintech não consegue avaliar adequadamente o ativo sustentável, a operação fica mais difícil.
Se a empresa compradora não consegue comprovar a origem e a utilização do ativo sustentável, o risco aumenta.
Se o originador não consegue comprovar a destinação dos recursos dos provenientes dos créditos de carbono, a compra não acontece.
Quanto maior a incerteza, maior a fricção.
E mercados com muita fricção negociam menos.
Greenwashing: quando a narrativa é maior do que a evidência
Outro desafio importante é o Greenwashing.
De maneira simples, greenwashing acontece quando uma organização apresenta uma imagem de responsabilidade ambiental positiva maior do que aquilo que consegue comprovar na prática.
No mercado de carbono, isso é especialmente sensível.
Não basta dizer que um projeto protege uma floresta.
É preciso demonstrar o que está sendo protegido.
Não basta dizer que uma iniciativa remove carbono da atmosfera.
É preciso mensurar, acompanhar e verificar essa remoção de acordo com os critérios aplicáveis.
Não basta uma empresa afirmar que compensou suas emissões.
É preciso existir evidência suficiente sobre o ativo utilizado e sobre a operação realizada. Caso contrário a empresa perde valor, clientes, mercado e muitas vezes suas ações em bolsa também caem.
Em outras palavras:
No mercado climático, a narrativa pode apresentar o projeto. Mas é a evidência que sustenta o seu valor.
Outro desafio: a dupla contagem nos mercados tradicionais.
Existia ainda um problema fundamental para mercados tradicionais de créditos de carbono: a dupla contagem.
A lógica era simples.
Imagine uma nota de R$ 100.
Uma pessoa possui aquela nota e afirma que tem R$ 100.
Depois, outra pessoa apresenta exatamente a mesma nota como se também tivesse R$ 100.
O dinheiro continua sendo um só.
Mas, na narrativa, ele apareceu duas vezes.
Com um ativo sustentável, o problema é ainda mais sério.
A mesma unidade não deveria ser utilizada indevidamente para representar mais de uma compensação.
A própria legislação brasileira trata da prevenção da dupla contagem no contexto dos ativos do SBCE e das regras de contabilidade climática.
É por isso que rastreabilidade em rede pública imutável, ouse seja na Blockchain não é apenas uma característica tecnológica.
É infraestrutura de confiança.
Escrito por
Odair Rodrigues – CEO e Fundador da B4, A Primeira Bolsa de Ação Climática
https://www.linkedin.com/in/odair-rodrigues
Conheça a infraestrutura da B4, Bolsa de Ação Climática
B4 — Bolsa de Ação Climática
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Índice de Ativos Sustentáveis
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Índice IBAS B4
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Boletim de Ativos Sustentáveis B4
https://b4.capital/pt/category/boletim/
Agente do Clima
https://agentedoclima.com
Portal B4 de Imprensa
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Relógio de Ação Climática
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Aplicação para Projetos Sustentáveis
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Como abrir sua conta na B4
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Como listar projetos na B4
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Como funcionam os projetos na B4
https://b4.capital/pt/como-funcionam-os-projetos-na-b4-a-bolsa-de-acao-climatica/
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